Queria só expor que, conforme um estudo realizado pela Revista M, da Casa da Moeda, (2ª série, número 1, 2023), é referido que este exemplar será uma moeda falsa produzida muito provavelmente na segunda metade do século XIX.
Deixo aqui um excerto da revista, com o link para a lerem na íntegra.
Obrigado
De acordo com a argumentação apresentada ao longo deste estudo, conclui-se que o morabitino «B», identificado por A. C. Teixeira de Aragão, em 1874, como moeda atribuível ao reinado de Afonso I e à oficina de Braga, corresponde, na verdade, a uma peça falsa, produzida talvez na segunda metade do século XIX. A análise efetuada a este artefacto permitiu chegar à conclusão de que existem vários tipos de evidências que apontam nesse sentido: tipológica, metrológica, histórica, museológica e bibliográfica. Estas evidências foram já apontadas por vários estudiosos ao longo do século XX, não obstante o facto de a moeda ainda ser incluída na secção relativa ao reinado de Afonso I no catálogo da autoria de Alberto Gomes, um dos instrumentos de trabalho mais comummente utilizados pelos numismatas portugueses.
A análise que procurámos levar a cabo permitiu-nos verificar que existe uma série de incongruências na forma como a informação é apresentada nas superfícies da moeda, indiciando a ocorrência de anacronismos difíceis de se explicar, em termos históricos e numismáticos, tendo em conta a época a que a moeda alegadamente se reporta. Estas incongruências são detetáveis numa perspetiva interdisciplinar, que tem em conta não apenas a análise da moeda, mas também da documentação produzida em Portugal nos finais do século XII, que não integra referências a esta moeda em data anterior à década de 80. Na prática, podemos dizer que esta não só não corrobora a existência de morabitinos portugueses em época anterior ao reinado de Sancho I, sendo as moedas com essa designação que ali surgem identificáveis como peças islâmicas ou castelhanas, como também aponta no sentido de que foi apenas a partir deste reinado que o ouro começou a ser amoedado já com os símbolos nacionais.
Há, por conseguinte, critérios internos e externos que nos permitem efetuar a crítica de autenticidade da peça e concluir que esta corresponde a um falso coevo da época em que terá sido referida na bibliografia da especialidade pela primeira vez. Os critérios internos são os que dizem respeito à moeda propriamente dita e estão relacionados com as suas caraterísticas tipológicas e metrológicas, entre as quais as decorrentes da análise detalhada dos respetivos tipos e letreiros. Os critérios externos, por sua vez, são os que dizem respeito aos parâmetros que marcam a história da produção e transmissão da peça ao longo dos séculos, associados, a título de exemplo, aos documentos que atestam a existência de moedas análogas a partir da década de 80 do século XII ou aos estudos que têm vindo a ser realizados pelos especialistas em numismática, de que resultou a polémica relativa à sua atribuição ao reinado e oficina em causa.
Neste sentido, apesar de não se poder corroborar a hipótese segundo a qual esta moeda teria sido cunhada em Braga em 1128, como foi sugerido nalguns trabalhos, é evidente que esta moeda se deve considerar um importante testemunho da produção de espécimes falsos no Portugal do século XIX, época conhecida pela proliferação de falsários. Conforme se verificou, o seu estudo permite apurar uma intencionalidade subjacente à falsificação relacionada com a tentativa de identificação de uma moeda até então totalmente ignorada do público português e europeu, o que, a corroborar-se a proposta avançada por A. C. Teixeira de Aragão, poderia ter redundado na identificação de uma das mais importantes moedas da numária medieval portuguesa, pela sua especial raridade e singularidade.
https://www.museucasadamoeda.pt/storage/revistasM/1708359649.pdf